Jovens da periferia de Fortaleza vão ao RJ para troca de experiências

Becos, vielas, praças, morro, favela, palcos, Fortaleza e Rio de Janeiro. Eles e elas estão em todo lugar. Ser jovem na periferia é, no mínimo, desafiador. E o desafio para alguns jovens da região do Carlito Pamplona e Pirambu, bairros na Regional I da Capital, agora é fortalecer uma rede de trocas e articulação, em que podem compartilhar as mais diversas experiências com outras periferias do Brasil, e até do mundo. O primeiro passo? A "Cidade Maravilhosa".

Para isso, o grupo vai à capital carioca, no dia 4 de maio e deve se dividir entre diferentes casas do Complexo do Alemão, onde irão trocar experiências por meio de iniciativas, que são culturais e políticas, através da música, da dança e da poesia. É uma tentativa de fortalecer laços e potencializar discussões sobre as inúmeras dificuldades ligadas às periferias. "Periferia e o Escambau" é o título da iniciativa. As despesas são todas custeadas pelo próprio grupo.
"Se a gente for pegar o sentido mais óbvio da palavra, 'escambo' é troca de bens, de serviços. E aí, se você traz isso para a periferia, uma característica muito marcante daqui é a troca, o compartilhamento. A gente une esses dois sentidos que dão vida a esse nome", explica a fotógrafa Gabi Madeiro, uma das participantes da rede de articulação.
Quem também vai junto com a Gabi ao RJ é a dançarina Larissa Paiva, 20; o DJ Piá (Alexandre Fernandes, 22); o artista visual Leonardo Lima, 19; os rappers Jardson Remido, 25, José Lucas, 20, e Layze Martins, 18; o educador social Daleste (Alécio Fernandes), 25; o produtor cultural Wilbert Santos, 25; e o arte-educador Michel (Angelo) "Vibration", 27.
"A gente percebeu que nossas problemáticas, nossas dores são comuns a muitas outras periferias. Da mesma forma que os problemas são comuns, as formas como essas potências vêm resistindo nesses territórios também é muito semelhante. A gente quer conectar nessa perspectiva de 'nós por nós'", complementa Gabi Madero.
Lá no Rio de Janeiro, os jovens participam de nova edição do SLAM Lage, uma batalha de poesia no Complexo do Alemão, que começou em 2017. "A gente está retornando pra comemorar o segundo aniversário deste evento que a gente ajudou a construir", revela Daleste, sobre os frutos da primeira ida ao Rio de Janeiro para troca de experiências.
O aprendizado mútuo é a principal moeda de troca no "Periferia e o Escambau". É aprender a resistir, a viver - e viver bem. "A gente está aqui resistindo, do mesmo jeito que eles lá (no Rio), em Salvador etc. A gente sabe que onde tem periferia, tem resistência, e a gente quer mostrar", comenta a dançarina Larissa. Já o rapper José Lucas relembra as constantes mortes de jovens que ocorrem nas periferias de Fortaleza, assim como no Rio de Janeiro. "A gente vai estar lá mostrando arte, como a gente sobrevive aqui, e aprender como eles sobrevivem lá. É o escambo, a troca de sobrevivência", complementa.
A ideia de criar uma rede compartilhada com periferias de outras cidades tem berço nas necessidades que surgem a partir das vivências locais, nas comunidades de Fortaleza. "A partir do momento que a gente nasce em comunidade, a gente aprende a viver em comunidade, a gente sente a comunidade pulsando na gente", comenta Larissa.
Por essa inquietação de sentir a comunidade pulsando, jovens de diferentes idades se reúnem em coletivos para organizar ações que promovam empoderamento da própria comunidade. "A gente relaciona a produção cultural com a produção de vida, e realiza atividades como o Sarau 'Na Torarte', 'Cine Natora', 'Natora Champions League', que é um torneio de 'travinha' na rua, a gente fecha a rua e a pivetada faz o campeonato, também tem o Baile da Castanhola, trabalhando as linguagens da música da favela", explica Daleste, participante do Coletivo Natora, que atua principalmente na região do Pirambu.


Coletivo é grupo de seres, indivíduos. A atuação de cada um é peça-chave dentro de uma máquina, seja ela coletivo ou comunidade, apesar de ser quase impossível separar ambos. "Eu recito poesias nos 'cambão', ou chego em escola, ou em casa (centro) socioeducativa, universidades. Aí, eu cobro ajuda de custo ou um cachê", destaca Remido. Essas ações são pensadas diretamente para o maior aproveitamento do público que delas participa, no caso, moradores de diferentes comunidades.
"O que eu toco é mais referência da favela, o que a favela escuta, o rap, o funk. A comunidade sempre traz a questão de não ter tanto entretenimento por aqui. E fazer o baile é uma oportunidade de colocar artistas da comunidade que não têm tanta visibilidade", complementa DJ Piá, que também é integrante do Nator.


DN